No começo, havia desejo.
Um olhar diferente.
Uma expectativa antes do encontro.
A vontade de tocar.
A curiosidade sobre o corpo do outro.
Então vieram a convivência, a intimidade, a rotina, as contas, os problemas, os filhos — em alguns casos — e aquela pessoa que um dia despertava desejo começou a ocupar outro lugar.
Virou companheiro.
Parceiro.
Confidente.
Melhor amigo.
Família.
Tudo isso parece maravilhoso — e pode ser.
O problema é quando, no caminho, vocês deixam de ser também homem e mulher um para o outro.
É nesse momento que muitos casais me dizem:
“Nós nos amamos, mas perdemos a intimidade na cama.”
E então surge a pergunta: como duas pessoas que se amam podem perder justamente o desejo uma pela outra?
Amor e desejo não são exatamente a mesma coisa
Um dos primeiros erros é imaginar que, quanto maior o amor, automaticamente maior será o desejo.
Relacionamentos humanos são mais complexos.
O vínculo afetivo costuma crescer com proximidade, confiança, previsibilidade, segurança e intimidade emocional.
O erotismo, entretanto, pode depender também de elementos aparentemente contraditórios: novidade, curiosidade, individualidade, expectativa e certa distância psicológica.
É por isso que podemos amar profundamente alguém e, ainda assim, perceber uma redução do desejo.
O problema não significa necessariamente falta de amor.
Às vezes significa que o casal aprendeu muito bem a construir vínculo, mas deixou de alimentar o erotismo.
Do amor erótico ao amor fraterno
Os gregos utilizavam diferentes palavras para falar sobre aquilo que hoje chamamos simplesmente de amor.
Entre elas estavam Eros, relacionado ao amor erótico e ao desejo, e Philia, relacionado à amizade, à afeição e ao companheirismo.
Um relacionamento amoroso duradouro pode conter ambos.
O problema aparece quando Philia cresce enquanto Eros praticamente desaparece.
Vocês passam a dividir tudo.
Contam tudo.
Fazem tudo juntos.
Brincam sobre tudo.
Conhecem absolutamente todos os hábitos um do outro.
A relação ganha companheirismo, mas pode perder tensão erótica.
E, aos poucos, aquela pessoa que era percebida como amante passa a ocupar psicologicamente um lugar cada vez mais próximo ao de um grande amigo.
O casal continua unido, mas deixa de se desejar.
O excesso de familiaridade pode afetar o erotismo?
Nosso cérebro responde intensamente à novidade.
Aquilo que é novo chama atenção. Gera expectativa. Produz curiosidade.
Com a repetição, ocorre um fenômeno psicológico bastante conhecido chamado habituação: estímulos repetidos tendem a provocar respostas menos intensas ao longo do tempo.
Isso não significa que “o cérebro deixa de gostar” do parceiro.
Significa apenas que aquilo que inicialmente era novidade torna-se familiar.
Pense no início do relacionamento.
Você provavelmente prestava atenção ao perfume dele.
Ao jeito como ele se vestia.
Ao encontro que aconteceria à noite.
Ao primeiro toque.
Existia antecipação.
Depois de anos de convivência, muitas dessas experiências tornam-se previsíveis.
O desejo, portanto, nem sempre desaparece porque existe algo errado com o relacionamento.
Às vezes ele simplesmente deixou de receber estímulos capazes de tirá-lo da rotina.
Quer entender melhor o que faz um homem manter o desejo e o interesse por uma mulher?
Relacionamentos não se sustentam apenas pelo amor. Comportamento, autoestima, sedução, comunicação e inteligência emocional também interferem na maneira como um casal se conecta ao longo do tempo.
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Preserve alguma privacidade íntima
Existe uma orientação que costumo dar aos casais:
intimidade não significa ausência completa de privacidade.
Você pode dividir uma casa, uma cama e uma vida com alguém sem transformar absolutamente todos os aspectos da sua existência em experiências compartilhadas.
Preservar determinados cuidados pessoais, momentos individuais e alguma privacidade corporal pode ajudar a manter a percepção do outro como alguém que ainda possui um universo próprio.
Isso não significa criar mistério artificial.
Muito menos esconder coisas.
Significa compreender que proximidade e fusão são coisas diferentes.
Quando duas pessoas se tornam psicologicamente fundidas, o espaço para curiosidade pode diminuir.
E o erotismo gosta de proximidade, mas também precisa de alguma diferenciação.
Cuidado para não transformar seu parceiro apenas em “parça”
Existe outro fenômeno interessante.
O casal se dá muito bem.
Faz piada sobre tudo.
Um tira sarro do outro.
Existem apelidos.
Brincadeiras.
“Zoeiras”.
Comentários sobre o corpo.
Comentários sobre situações constrangedoras.
E, aparentemente, isso demonstra uma intimidade maravilhosa.
Até que chega a hora de o casal sair desse registro de amizade e entrar no registro erótico.
E alguma coisa parece estranha.
Aquilo que deveria ser sensual parece constrangedor.
Por quê?
Porque vocês passaram horas — ou dias — se relacionando psicologicamente como dois grandes amigos e esperam que, simplesmente porque entraram no quarto, o cérebro faça uma mudança instantânea de registro:
“Agora desejo essa pessoa.”
Nem sempre funciona dessa maneira.
Humor é maravilhoso dentro de uma relação.
Companheirismo também.
Mas existe diferença entre rir com seu parceiro e transformar constantemente seu parceiro em objeto de piada.
Principalmente quando as brincadeiras envolvem aparência, desempenho, inseguranças ou características íntimas.
Admiração e desejo possuem uma relação importante.
E aquilo que constantemente ridicularizamos dificilmente permanece erotizado da mesma maneira.
Não deixem de namorar porque começaram a morar juntos
Um dos grandes paradoxos dos relacionamentos longos é este:
No começo, fazemos diversas coisas para conquistar alguém.
Depois que conquistamos, paramos justamente de fazer aquilo que ajudou a criar o desejo.
No namoro havia preparação.
Roupa escolhida.
Perfume.
Encontro marcado.
Expectativa.
Saudade.
Conversa.
Sedução.
Depois:
“Quer pedir alguma coisa?”
“Pode ser.”
“Qual?”
“Tanto faz.”
E cada um fica olhando para o próprio celular.
O problema não é pedir comida no sofá.
O problema é quando toda a relação passa a acontecer no sofá.
O desejo precisa encontrar espaços diferentes daqueles destinados à administração da vida cotidiana.
Como recuperar o desejo e a intimidade no relacionamento?
Não existe uma única resposta. Sedução, admiração, autoestima, comunicação, comportamento e a própria dinâmica construída pelo casal podem fazer diferença.
Por isso, melhorar a vida amorosa exige muito mais do que colecionar dicas sobre homens. Exige compreender seus próprios padrões e aprender novas maneiras de se posicionar dentro de uma relação.
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Crie distância sem criar afastamento
Parece contraditório, mas relacionamentos saudáveis precisam de individualidade.
Tenha seus interesses.
Seus projetos.
Seus amigos.
Seus momentos.
Cuide do seu corpo por você.
Continue aprendendo.
Continue crescendo.
Continue sendo alguém que seu parceiro ainda pode descobrir.
Quando duas pessoas continuam se desenvolvendo individualmente, elas não chegam ao encontro exatamente iguais todos os dias.
Existe novidade psicológica.
Você olha para aquela pessoa e percebe:
“Ainda existe alguma coisa nela que eu não conheço completamente.”
Isso pode ser muito poderoso para o desejo.
Recupere a antecipação
Outra coisa que desaparece com a rotina é a expectativa.
No início, vocês esperavam pelo encontro.
Agora estão disponíveis um para o outro praticamente o tempo inteiro.
Experimente recuperar pequenos rituais de antecipação.
Marquem um encontro.
Arrumem-se separadamente.
Saiam de casa.
Conversem sobre assuntos que não sejam contas, filhos, problemas ou tarefas.
Flertem novamente.
Elogiem.
Olhem um para o outro.
Toquem-se sem transformar todo carinho em obrigação de chegar a algum lugar.
Desejo também é construído antes da intimidade.
Admiração é combustível
Pergunte a si mesma:
Eu ainda admiro meu parceiro?
E mais:
Eu demonstro essa admiração?
Casais frequentemente se tornam especialistas em identificar defeitos um do outro.
Você conhece exatamente onde ele falha.
Ele conhece exatamente onde você falha.
Isso é consequência natural da convivência.
Mas quando o olhar passa a procurar exclusivamente falhas, o parceiro deixa de ocupar o lugar de alguém admirável.
Por isso, recuperar a intimidade também envolve recuperar o olhar.
Observe novamente aquilo que despertou seu interesse.
Reconheça qualidades.
Elogie.
Permita-se enxergar aquela pessoa para além das funções que ela exerce dentro da casa.
“Mas nós nos amamos muito”
Ótimo.
Talvez vocês tenham construído uma relação afetivamente sólida.
O próximo passo é compreender que amor não substitui o cultivo do desejo.
Você pode ter carinho.
Confiança.
História.
Companheirismo.
Lealdade.
E ainda assim precisar reconstruir o espaço erótico da relação.
Não existe contradição nisso.
O amor pode desejar segurança.
O erotismo frequentemente precisa também de novidade, individualidade, expectativa e admiração.
Relacionamentos duradouros precisam aprender a sustentar os dois.
Como recuperar a intimidade no relacionamento?
Comece observando algumas coisas simples.
Vocês ainda flertam?
Ainda se arrumam um para o outro?
Existe privacidade?
Existe individualidade?
Existe admiração?
Existe expectativa?
Vocês conversam apenas sobre problemas?
Transformaram-se exclusivamente em pai e mãe?
As brincadeiras começaram a dessexualizar um ao outro?
A intimidade virou algo completamente previsível?
Vocês ainda conseguem se enxergar como amantes?
Essas perguntas podem revelar mais do que simplesmente perguntar:
“Por que não temos mais vontade?”
Porque, muitas vezes, a perda da intimidade não começa na cama.
Começa muito antes.
Começa quando deixamos de olhar.
Quando deixamos de admirar.
Quando deixamos de flertar.
Quando deixamos de preservar individualidade.
Quando deixamos de namorar.
Até que sobra um casal que funciona perfeitamente como equipe, administra a casa, paga as contas, resolve os problemas e talvez seja até formado por dois excelentes amigos.
Mas esqueceu como ser casal.
O objetivo, portanto, não é escolher entre amizade e erotismo.
É recuperar o equilíbrio.
Sejam parceiros.
Sejam amigos.
Sejam confidentes.
Mas, de vez em quando, lembrem-se de deixar o “parça” do lado de fora do quarto.
Porque intimidade não é apenas conhecer profundamente o outro.
É conseguir olhar para alguém que você conhece há anos…
e ainda encontrar naquela pessoa algo que desperte desejo.
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É para a mulher que deseja melhorar seu relacionamento, mas compreende que uma transformação amorosa consistente também começa dentro dela.
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